Atos condenáveis     


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Tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência (Tiago 5:6).

O terceiro pecado apontado por Tiago e cometido pelos ricos, era o fato de condenar e matar o justo. A influência dos ricos e a utilização ímpia de suas riquezas, servia para comprar os juízes e condenar o justo. Esta prática pecaminosa havia sido denunciada pelos profetas do antigo Testamento: “Porque eu conheço as vossas muitas rebeliões e os vossos grandes pecados, que hostilizais ao justo e recebeis suborno para fazer perder a causa dos pobres no tribunal” (Amós 5:12, tradução da versão de RVA em espanhol). A situação não mudou, e os pecados dos antigos estavam sendo praticados pelos contemporâneos de Tiago. O tempo passa, mas o pecado humano persiste. Os presentes para os juízes determinavam a sentença contrária ao justo. Será que isto não aponta para os nossos dias, também? Embora os juízes ditavam a sentença condenatória, ela, contudo, era determinada pelos ricos com seus subornos. O contexto textual parece indicar uma prática de levar os trabalhadores diante dos tribunais para que fossem declarados como “maus trabalhadores” e sentenciados a não receber pela jornada de trabalho.

Tiago não afirma que apenas que eles condenavam, mas também que matavam o justo. Não se deve entender de forma literal o fato de assassinar a pessoa do justo. Tal situação se compreende como uma ação direta contra o obreiro, ao despojá-lo dos recursos mínimos para subsistência. Sendo isso uma realidade, aqueles ricos condenavam o trabalhador à morte, lentamente. O salário do trabalhador retido com fraude (ver publicação anterior), significava tirar-lhe o sustento e, portanto, leva-lo à morte.

A seguir, Tiago afirma que esta ação é contra o justo. A referência é sobre aqueles que são inocentes na participação da impiedade realizada pelos ricos. No contexto da epístola, deve-se entender como o cristão pobre que é oprimido e perseguido pelos ricos. Entretanto, mais odioso se mostra esse pecado, haja vista que o pobre não oferece nenhum tipo de resistência. Assim sendo, o rico abusa da mansidão do pobre para causar-lhe dano. A ideia é que esses pobres fazem parte do Reino e, como filhos, aprenderam o ensinamento de Jesus: Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra (Mateus 5:39). Uma atitude semelhante, só pode ter origem em um coração que bate em consonância com a graça de Quem é bom, por essência (Naum 1:7).  Somente aquele que recebeu um novo coração estará em condição de deixar de exigir os seus direitos. Por outro lado, o arrogante sempre procura a autodefesa. Um golpe recebido por uma pessoa que não nasceu de novo, produz, de imediato, um desejo de vingança contra o seu ofensor. Este não era um ensino novo de Jesus, uma vez que podemos vê-lo nas palavras de Davi: entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais ele fará. Fará sobressair a tua justiça como a luz e o teu direito como o sol ao meio dia. Descansa no Senhor… Deixa a ira, abandona o furor; não te impacientes; certamente, isso acabará mal (Salmo 37:5-8). Deus encarregará da situação; por isso, descansa n’Ele.

Será que aqueles ricos, a quem Tiago escreveu, são crentes em Cristo? No primeiro entendimento, sim; no último, apenas cristãos professos. O fato de levar aos tribunais as diferenças entre os cristãos, foi causa da exortação de Paulo aos coríntios (1 Coríntios 6:1-8). Aqueles ricos agiam em benefício próprio, mesmo contra os seus próprios irmãos.

Para finalizar, cabe aqui uma reflexão sobre a igreja do passado. Há quem considere que a igreja dos primórdios era mais virtuosa, mais comprometida e fiel que a atual. Se isto fosse uma verdade, a medida em que retrocedêssemos no tempo, veríamos uma igreja mais rica em fé e mais consistente. Todavia, a realidade histórica é outra. A igreja é um corpo de cristãos com suas misérias, seus fracassos, suas debilidades e seus pecados. A salvação não retira do cristão a velha natureza e, enquanto ele não viver sob o controle do Espírito, as obras da carne se tornarão visíveis. O crente em Cristo deve estar consciente da sua condição e descansar na graça de Deus. Não obstante, isto não significa que ele não seja responsável pelos seus atos, mas sim que o reconhecimento dessa condição o faz caminhar na trilha da incessante busca da face do Pai. Quanto mais perto estiver do Altíssimo, mais distante do pecado e de suas mazelas. De outra forma, quanto mais envolvido com este mundo, mas longe de Deus e de seus propósitos estará. Em última instância, a vida do cristão deve ser caracterizada pelo amor, pois se ele for incapaz de amar aos irmãos, demonstra de forma visível que não conheceu a Deus, posto que Deus é amor (1 João 4:8). Este último parágrafo serve como nosso momento de reflexão costumeira.

Que o Senhor te abençoe abundantemente,

Pr. Natanael Gonçalves

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