Perdendo o Rumo


by

3.O corredor.

Vós corríeis bem; quem vos impediu de continuardes a obedecer à verdade? (Gálatas 5:7 – Ler 7-12)

Paulo gostava de usar ilustrações acerca do atletismo em suas cartas. Seus leitores conheciam os jogos olímpicos e outras competições atléticas gregas, que sempre incluíam corridas a pé. É importante observar que Paulo nunca usa a imagem das corridas para explicar como ser salvo; antes, ele as usa para ilustrar a vida cristã. Para participar dos jogos olímpicos, a exigência era que os competidores fossem cidadãos gregos, e, neste ponto, podemos entender o paralelo da ilustração. Tornamo-nos cidadãos do céu por meio da fé em Cristo; então, o Senhor nos designa o alvo para o qual corremos em direção ao prêmio (Filipenses 3:12-21). Não corremos para ser salvos, mas sim porque já somos salvos e desejamos realizar a vontade de Deus em nossa vida (Atos 20:24).

Vós corríeis bem.” Quando Paulo os visitou pela primeira vez, os gálatas o receberam como um “anjo de Deus” (Gálatas 4:14). Aceitaram a Palavra, creram no Senhor Jesus e receberam o Espírito Santo. Experimentaram uma alegria profunda, visível a todos, e se mostraram dispostos a fazer qualquer sacrifício por Paulo (Gálatas 4:15). Agora, porém, o consideravam seu inimigo. O que havia acontecido? O verso 7 nos dá a resposta: Vós corríeis bem; quem vos impediu de continuardes a obedecer à verdade? Nas corridas, cada corredor devia ficar em sua pista, mas alguns corredores se colocavam na pista de seus competidores com o fim de tirá-los do rumo. Era isso o que os judaizantes haviam feito com os cristãos da Galácia: se colocavam em sua pista, forçando-os a mudar de direção e a pegar um “desvio espiritual”. Não havia sido uma interferência de Deus, pois Ele os havia chamado a correr fielmente na pista que lhes havia designado, isto é: a pista chamada “graça”.

Em sua explicação, Paulo troca o simbolismo apresentando a figura do fermento. No Antigo Testamento, o fermento costuma ser retratado como um símbolo do mal. Durante a Páscoa dos judeus, por exemplo, não era permitido haver qualquer fermento em casa (Êxodo 12:15-19; 13:7). Jesus usou o fermento para retratar o pecado quando advertiu sobre o “fermento dos fariseus” (Mateus 16:6-12), e Paulo o emprega como símbolo do pecado na igreja de Corinto (1 Coríntios 5). De fato, o fermento é uma boa ilustração para o pecado, pois ao ser misturado na massa, cresce e se espalha. A falsa doutrina dos judaizantes foi introduzida nas igrejas da Galácia pouco a pouco, mas não tardou para que o “fermento” crescesse e se apoderasse de tudo.

Uma igreja não é tomada de um espírito de legalismo repentinamente. Assim como o fermento, esse espírito é introduzido em segredo, cresce aos poucos e logo contamina toda a congregação. Na maioria dos casos, os motivos que alimentam o legalismo são bons, como por exemplo: o desejo de se ter uma igreja mais espiritual. Como disse; o desejo é bom, mas os métodos não condizem com as Escrituras. Não é errado ter parâmetros dentro da igreja, mas não devemos jamais pensar que esses parâmetros sejam capazes de tornar alguém espiritual, ou que a observância a regras seja uma demonstração de espiritualidade. O fermento cresce com facilidade. Em pouco tempo, nos tornamos orgulhosos de nossa espiritualidade (ensoberbecidos, como diz Paulo em 1 Coríntios 5:2). Como resultado, criticamos a todos de outras igrejas, pois nos achamos mais espirituais. Essa atitude, com certeza, alimenta a carne e entristece o Espírito Santo. Todavia, aqueles que seguem nesse caminho pensam que estão glorificando a Deus.

Todo cristão verdadeiro tem a responsabilidade de estar alerta para reconhecer os primeiros indícios do legalismo, ou seja, a primeira pitada de fermento que afeta a todos da igreja, a qual cresce, chegando a ser um sério problema na congregação. Não é de se admirar que Paulo seja tão veemente: “Estou sofrendo perseguições porque minha pregação é sobre a cruz, mas esses falsos mestres são verdadeiras celebridades porque pregam uma religião que alimenta a carne e o ego. Querem circuncidá-los? Tomara que se cortassem a si mesmos!” (Gálatas 5:11,12, tradução literal). Desde a morte e a ressurreição de Cristo, a circuncisão perdeu seu valor espiritual; passou a ser apenas uma operação física. Paulo desejava que os falsos mestres realizassem uma cirurgia em si mesmos – “se castrassem” – a fim de não mais gerar “filhos da escravidão”.

O cristão que vive na esfera da graça de Deus é livre, rico e corre na pista que conduz à recompensa. No entanto, o cristão que abandona a graça em troca da Lei, é um escravo, um devedor e um atleta que perdeu o rumo. Em outras palavras, um perdedor. A única maneira de se tornar vencedor é “purificar-se do fermento” da falsa doutrina que mistura a Lei com a graça e se sujeitar ao Espírito de Deus. A graça de Deus é suficiente a todas as necessidades da vida. Somos salvos pela graça (Efésios 2:8-10) e servimos pela graça (1 Coríntios 15:9-10). Ela nos ajuda a suportar o sofrimento (2 Coríntios 12:9) e nos fortalece (2 Timóteo 2:1), a fim de nos tornarmos soldados vitoriosos. Nosso Deus é o Deus de toda a graça (1 Pedro 5:10).

Podemos nos aproximar do trono de Deus e achar graça para socorro em ocasião oportuna (Hebreus 4:16). Ao ler a Bíblia, “a palavra da Sua graça” (Atos 20:32), o Espírito da graça (Hebreus 10:29) nos revela as riquezas que possuímos em Cristo. “Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça” (João 1:16). Já pensou que grande riqueza temos a nosso dispor? Apesar disso, muitos cristãos vivem como se pobres fossem.

Pr. Natanael Gonçalves

share

Recommended Posts

Comments

  1. Muito bom!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.